Méritos, Truques e Habilidades Populistas

Os três anos mais conturbados da vida do autarca de Gondomar, contados em 200 páginas pelo seu ex-assessor de imprensa. Uma reflexão sobre o populismo e sobre o estado da política portuguesa... um verdadeiro manual sobre como ganhar eleições em Portugal
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quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Estamos salvos do inferno

Ainda não sei quem ganhou nas eleições americanas, mas pela excitação que as televisões portuguesas exibem, devemos mesmo estar salvos de um qualquer inferno. Há 30 anos que a comunicação social portuguesa não dava tanta importância a umas eleições. Se Obama tivesse concorrido ao Sindicato dos Jornalistas Portugueses, teria ganho com 100% dos votos... Esta histeria só diz mal dos estado da nossa própria democracia.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Presidenciais Americanas vs Autárquicas Portuguesas

"Sempre pensei que os partidos políticos, perante as vitórias de Valentim, Isaltino e Felgueiras, em 2005, procurassem saber mais acerca dos motivos do eleitorado. Em vez disso, têm apenas tentado encontrar formas para evitar que voltem a ser candidatos."

Esta frase está contida no livro A VARINHA MÁGICA DE VALENTIM LOUREIRO. E o que é que isto tem a ver com as eleições americanas? É que - parece-me a mim - são despropositadas a importância e a esperança que estão a ser depositadas nesta eleição. Em particular, parece-me exagerada a esperança que Obama desperta. Há mais de dois meses que as nossas notícias são monopolizadas por esta "guerra" que não é a nossa. Sim, não é a nossa, por mais que me digam que o que se passa nos Estados Unidos se reflecte no resto do Mundo. De facto, são os americanos que escolhem o seu líder e, neste caso, parece-me que até já escolheram. Então, porquê tanto frenesim? Tanta informação? Será que informamos tanto os portugueses acerca de eleições em que eles próprios terão que escolher e, logo, estar informados?

Se por um lado me apetece dizer "até que enfim, amanhã é terça-feira e o circo vai acabar", por outro, fica-me a tristeza por saber que o batalhão de jornalistas portugueses que, a esta hora, já está nos Estados Unidos regressará para mais do mesmo em Portugal.
As nossas eleições, as causas das nossas vitórias e derrotas, as legítimas idiossincrasias do nosso povo, ou o desinteresse pelo seu próprio futuro mais directo e pela sua própria política representativa continuarão sem um décimo da análise profunda que fazemos em relação ao que se passa do outro lado do mar...
Culpa dos nosso políticos e, também, da nossa fraca imprensa.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Os jornalistas/políticos, os técnicos/jornalistas e os políticos/técnicos


Um destes dias, participei num jantar debate sobre o TGV. A iniciativa pertenceu a uma associação portuense que convidou, entre outros, a Secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula Vitorino, o Professor Álvaro Costa, da Universidade do Porto, e o jornalista Carlos Magno.
Foi muito interessante assistir ao desenrolar da conversa, em jeito informal, que me foi dando pessoalmente argumentos para aceitar essa obra pública como boa e cuja utilidade ainda não tinha conseguido entender.
De qualquer forma, serve este exemplo para ilustrar (e aplicar a Portugal) aquilo que ontem postei acerca de Obama e McCain. Isto é, acerca do medo de errar, que é tal, que leva os políticos a inverterem a sua própria razão de existir.
Nesse jantar debate a que assisti, a Secretária de Estado Ana Paula Vitorino fez uma longa e técnica explicação acerca do TGV. Percebemos todos. Depois, veio o Professor Álvaro Costa, e fez a apologia da prioridade a Norte, para aquela obra. De seguida, um espanhol, representante do projecto espanhol do TGV na Galiza, explicou-nos o que se vai passar do lado de lá da fronteira, quanto à linha Porto-Vigo.
Finalmente, Carlos Magno, elogiou “a Ana Paula”, com quem acabara de jantar e elogiou, sobretudo, o seu discurso “engenheiral”.
Ora, eu não elogio os governantes quando eles têm discurso “engenheirais”. E não me refiro, concretamente, àquele jantar que, além de agradável, até seria um bom local para se inverterem papeis. Mas, o facto, é que em Portugal se assiste actualmente a um enorme medo de fazer política.
Aquilo a que assisti naquela noite é, afinal, muito parecido com o que tem sido a vida política portuguesa. Os políticos falam como técnicos, os técnicos são mais mediáticos que os jornalistas e os jornalistas fazem política…
De facto, a política está tão desacreditada, que nem os políticos conseguem assumir as suas próprias convicções. Para darem um passo, encomendam 20 estudos que possam sustentar o que querem fazer, sem terem que o assumir politicamente.
Gostava, por uma vez, de ver os políticos fazerem política, assumindo os erros, quando os houver, e credibilizando a sua própria existência, sem terem que se pendurar permanentemente nas opiniões dos técnicos e no aval dos jornalistas. Claro que os estudos são necessários e que a crítica jornalística pode e deve ser pertinente, mas, neste momento, a inversão de valores é total.
No meio de tudo isto, chocou-me algo que ninguém deve ter reparado. Enquanto, naquela sala, ouvíamos Carlos Magno fazer política, Álvaro Costa passar por jornalista e a “Ana Paula” fingir ser um técnico, o “nosso amigo espanhol” (como alguém a ele sse referiu), acabou por nos dizer onde passará o TGV na Galiza, quantas pontes terá, quantos túneis atravessará, qual a profundidade dos túneis, como entra nas cidades, onde serão as estações, quando estará pronto e quanto custa. Além do mais, que me lembre, foi o único orador que tratou "a Ana Paula" por "senhora Secretária de Estado"!
Voltando a concordar que, de vez em quando, faz sentido invertermos os papéis e discutirmos informalmente estas questões, na verdade, a vida política portuguesa tem sido isto. Falamos muito, ninguém assume as suas reais responsabilidades políticas com coragem e, no final, ouvimos dizer que Espanha já fez ou já está a fazer…

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Uma gaffe, um pedido de desculpas a João Semedo e o medo de errar em Obama e McCain

No lançamento do livro terão estado cerca de 100 pessoas. Entre essas pessoas, alguns amigos e familiares. As suas opiniões acerca do que escrevo são fundamentais e quase superam a satisfação de saber que o livro vende bem e, por isso, é lido por esse país fora.
Mas é ainda com maior satisfação que vou sabendo da opinião de gente da política, do jornalismo, da comunicação. Sempre disse, que gostava que o meu livro fosse também lido nessa perspectiva técnica.
Entre os telefonemas e mensagens que tenho recebido, uma recordou-me ontem um dos episódios que relato no livro.
É um episódio que se refere a uma gaffe cometida por mim, quando, minutos antes de um debate autárquico na Rádio Renascença, cometi uma infelicidade enquanto tomava café com o moderador. A minha gaffe consistiu em ser pouco delicado ao referir-me ao candidato do Bloco de Esquerda, João Semedo, sem me aperceber que este poderia estar a ouvir, uma vez que se encontrava atrás de mim.
Esse meu momento infeliz fez-me meditar. Na altura e agora. Na verdade, não cheguei a saber se João Semedo ouviu a minha conversa com o jornalista da Rádio Renascença. Mas quando acabei de proferir uma frase menos elegante referindo-me ao adversário político de Valentim Loureiro, dei de caras com ele. O que me perturbou foi ter tido a plena consciência de que, além de político e adversário, João Semedo é pessoa humana.
Serviu esse episódio para tentar demonstrar que, por detrás de cada julgamento sumário, de cada erro ou leitura precipitada que, por vezes, temos tendência a fazer sobre quem apenas conhecemos dos ecrãs e dos jornais, há pessoas como nós. Pessoas que também erram que também cometem gaffes e que, por vezes, se sentem injustiçadas pelas leituras apriorísticas que fazemos sobre todos os seus actos.
A vida pública e, em particular a vida política, tem-se especializado neste tipo de julgamento. E não se pense que esse é um mal português. Uma gaffe, um erro humano, uma infelicidade podem deitar por terra uma eleição… mas apenas se for público. Também no meu livro, aludo ao que aconteceu com Manuel Maria Carrilho e Carmona Rodrigues, em Lisboa, no célebre aperto de mão no final de um debate, revelo o que aconteceu nos bastidores de debates contemporâneos, com Valentim Loureiro, e nunca foi notícia, mas também procuro mostrar como é injusto, por vezes, este mundo global da comunicação.
Ainda há dias, a propósito das eleições nos Estados Unidos, via na televisão uma reportagem sobre a história das gaffes cometidas por candidatos presidenciais no passado. Num dos casos, a gaffe terá sido o candidato ter olhado para o relógio durante um debate. Esse gesto pode ter custado uma eleição e pode ter alterado o rumo dos Estados Unidos, que é como dizer, do Mundo.
Nas palavras de Obama e McCain consigo ler, mais do que propostas concretas para transformar para melhor a vida das pessoas, o pânico de também cometerem uma gaffe, que os tornará “carne para canhão” na injusta “guerra mediática”.
Tenho pena que assim seja. Tenho pena que hoje se exija à figura pública qualidades inumanas e não, qualidades de ser humano que possam ajudar-nos a sermos mais felizes.
No meio de tudo isto, e voltando ao início deste post, a mensagem que o José Carlos Gomes (ex-assessor do Bloco de Esquerda na campanha Autárquica de 2005) me enviou para o e-mail, vale muito para mim.
Quanto mais não seja, prova-me que já valeu a pena ter pedido desculpa a João Semedo no livro que escrevi.